Dom Helder Camara – O Santo Rebelde

Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista. Dom Helder

Por mais de secenta anos a América Latina ficou envolta sob as nuvens escuras da Ditadura Militar. Vários paises foram violentados com atos que colocavam a frente de todas as suas decisões a Segurança Nacional e a luta contra o Comunismo. O Brasil por sua vez foi atingido pelo golpe em 1964 ficando atado até 1985 nesse sistema. Perseguições políticas, pessoais, religiosas, torturas, desaparecimentos e censuras foram os atos mais comuns mas que descrevem bem tal fase. Dentro deste cenário surge um Bispo. Amado por muitos e perseguido por outros. Bispo e homem que enfrentou poderosos defendendo o caráter humano e vida em sua dignidade de expressão máxima garantida pelos Direitos Humanos. Bispo que em várias viagens internacionais denunciou as atrocidades que aconteciam em nosso país e em outros da Europa. Bispo cuja imagem e qualquer referência fora proibida de circular em todos os meios de comunicação pelo incômodo que gerou aos militares.

Nascido na cidade de Fortaleza aos sete dias de fevereiro do ano de 1909, Helder Pessoa Camara era filho do jornalista, maçom e guarda-livros João Eduardo Torres Camara Filho e da professora Adelaide Rodrigues Pessoa Camara. Familia culta e de bom relacionamento politico após dar ao filho boa educação o ingressa no Seminário da Prainha dos padres lazaristas no ano de 1923. Sendo então ordenado depois de oito anos, com apenas vinte e dois anos de  idade.

Helder e seu pai

Após consagrado sacerdote exerce a função de professor, e dai começa a ter contato com os leigos e principalmente os da classe operária. A partir deste momento se dá incio a uma relação que irá perdurar por toda sua vida. Inicialmente participa da Legião Cearense do Trabalho, os Círculos Operários, a Juventude Operária Católica, a Sindicalização Operária Católica Feminina e a Liga dos Professores Católicos do Ceará. Integra por um período ao Movimento Integralista com objetivo de combater o Comunismo, que depois abandona por desilusão a sua política. Depois, chamado pelo Cardeal Leme, vai ao Rio e trabalha de 39 a 43 no Ministério da Educação e Saúde e é mantido longe da ação pastoral.

Funda a Família de São Joaquim, com a aluna Virginia Cortês, que dará uma nova fisionomia a Igreja no Brasil. Durante a Ditadura sofre diversas perseguições devido as suas ações em denunciar as atitudes que o governo tomava contra os opositores que eram torturados e por tentar promover uma melhor condição de dignidade humana aos mais necessitados. Todos os contatos políticos que mantinha sempre eram voltados a fazer com que os políticos o ajudassem nessas jornadas e se comprometessem com as causas sociais e também educacionais.

É nomeado bispo auxiliar de Dom Leme no Rio de Janeiro em 22 de Abril de mil novecentos e cinquenta e dois. Como seu auxiliar participa do Concílio Vaticano II donde traz muitos sonhos e novos aliados. No Concílio, no dia doze de março de mil novecentos e secenta e quatro é nomeado Arcebispo de Olinda e Recife onde trabalhou até o fim de sua vida. Em Roma tem contato com a Igreja de uma maneira descomunal.

É justamente neste Encontro Ecumênico que fora convocado pelo papa João XXIII, sendo encerrado pelo papa Paulo VI devido à morte de seu antecessor no ano de 1963, ocorre na Cidade do Vaticano o Concílio do Vaticano II que Helder Camara tem um contato Católico, Universal, em seu real significado com a Igreja.

Helder no Vaticano II

De uma profundidade que o marca bastante em sua vida. O Concilio durou de 1961,preríodo pré-concílio, a 1965 com finalidade de reorganizar a Igreja diante do novo mundo em que vivemos. Deixar para tras alguns pensamentos e ideologias tanto pastorais quanto liturgicas e teologicas e como também reafirmar e afirmar antigos e novos posicionamentos da Igreja em relação a sua relação entre com os leigos e as causas que comprometem a dignidade da vida humana. Para Dom Helder foi a maior experiencia que ja havia tido em sua vida. Um campo de contatos e trabalhos que soube aproveitar e se expandir como ninguem. Certamente aprendeu com Clérigos que tinha já admiração devido aos pensamentos humanistas e progressistas como por exemplo Congar e Lebret, como também fez vários contatos e alianças com os seus irmãos sacerdotes de diversas partes do mundo. Solidificou o CELAM e organizou o CELAF e CELAS. Como também sempre mantinha contato com os grupos da Ação Católica e focava mais estas alianças com os representantes dos paises do terceiro mundo.

Durante a ditadura militar, Dom Helder foi alvo de várias perseguições e tentativas de macular sua imagem e de liga-lo diretamente ao comunismo. Numa das tentativas de manchar sua reputação se conta que numa das madrugadas estava ele em seus momentos de meditação, quando batem a porta da igreja. Silenciosamente ele vai a abre a porta quando de súbito uma mulher se joga em seus braços aos prantos e diz que entre pois os militares a mandaram ali para que a imagem dele fosse comprometida sendo pego com uma prostituta. Memso assim ele a pegou e a conduziu ao interior onde mandou que se acalmasse e depois a deixou partir.

Capa de revista

Homem de fé, fibra e coragem onde fazia alianças com pessoas poderosas e politicos que o ajudassem em sua causa. Mas isso não era visto com bons olhos principalmente pelo governo regente. Tentativas de o silenciar foram várias até chegarem ao ponto de impedirem qualquer publicação de seu nome e até mesmo mencionar o seu nome em todas as mídias sociais. Ele passou a ser um verdadeiro fantasma. Já que não conseguiam o atingir diretamente tentavam fazer a quem lhe cercava. Isso ocorreu quando na noite do dia 26 de maio de 1969, então com 28 anos de idade, Padre Henrique (amigo de íntimo de Dom Helder) foi sequestrado depois de participar de uma reunião com um grupo de jovens católicos, no bairro de Parnamirim. No dia seguinte, foi encontrado morto com marcas de tortura em um matagal na Cidade Universitária. Isso fez com que nosso pequeno homem ficasse realmente abalado, pois tal atitude cruel e covarde fora cometido contra alguém que não deveria ser vítima.

Mas, mesmo sendo perseguido e tentando-se ‘apaga-lo’ em sua terra natal, suas viagens pelo mundo a fora foram várias. Paises desenvolvidos o chamavam sempre para que, de maneira igual, já que viviam suas ditaduras, esta voz ecoasse pelas universidades e meios jovens fazendo com que os perseguidos fossem escutados. Que os direitos humanos fossem verdadeiramente respeitados. Por vários anos foi indicado ao Prêmio Nóbel da Paz, mas todas as vezes os militares usaram de sua influência e não permitiram. Mas no ano de 1972 foi o do absurdo, onde Helder era unânime para receber, não houve vencedor.

Em 1984, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia. Em 15 de julho de 1985, passou o comando da Arquidiocese a Dom José Cardoso Sobrinho. Continuou a viver em Recife, nos fundos da Igreja das Fronteiras, onde vivia desde 1968.

Morreu aos 90 anos em Recife no dia 27 de Agosto de 1999.

Homem, cristão, sacerdote, humanista. Dom Helder nos deixa um legado de valor inestimável. Um homem de aparência frágil nos mostra o quanto enfrentou vários Golias em sua vida em prol daqueles que eram e até hoje são excluidos. Escritor de livros, Doutor Honores Causa em várias Universidades e referência de um cristianismo social que não via divisões de classe onde todos eram e são agraciados pelas dádivas de Deus.

Mais que comum dos dias, olhei o mais que pude os rostos dos pobres, gastos pela fome, esmagados pelas humilhações, e neles descobri teu rosto, Cristo Ressuscitado! Dom Helder

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Sobre O Gerente

Graduado em História pela Universidade Católica de Pernambuco, estudioso das áreas da Filosofia, Sociologia, correntes religiosas e da História da Igreja. Extrovertido e Nerd, eterno buscador do conhecimento e das virtudes humanas.

Publicado em 1 de maio de 2012, em A Bodega, Brasil, Meu Pernambuco, Mundo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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