RELIGIÃO E SEXO: DO CONTROLE NA IDADE MÉDIA E DA SUA HERANÇA NA CONTEMPORANEIDADE – (Parte 02)

Hieronymus Bosch, O jardim dos prazeres terrenos, 1504.

E o matrimônio era a tecla mais batida pela igreja. Um homem que quisesse ter uma vida sexual correta e sagrada deveria escolher uma mulher e tomá-la como esposa.

E após as bênçãos devidas tomava a posse dela e seguia mais algumas regras que deveriam nortear as noites do casal. Como dizia São Paulo em sua carta aos coríntios “É melhor casar do que abrasar-se”.

Mesmo se parecendo como belos conceitos de vida estes tinham algo por trás. Não eram somente valores, mas sim ferramentas aos quais foram utilizadas de maneira violenta para não só limitar a sexualidade e suas expressões diversas como também para adestrar e castrar os casais em seus momentos íntimos.

Tais valores não foram bem aceitos pelos fiéis. Essa interferência que a igreja estava propondo em suas vidas privadas estava fazendo com que mais e mais pessoas se afastassem dos centros eclesiásticos. Tais centros eram as cidades que tinham supervisionamento de bispos e de mosteiros que com sua influência podiam facilmente controlar todas as vidas dos campesinatos. Obviamente que a igreja via este fato como algo que deixava bem claro que estas pessoas não eram verdadeiros cristãos e que viviam em pecado, e que era utilizados nas missas como maus exemplos. Segundo a Igreja esse afastamento dava início a uma vida pagã.

Não foram somente os que viviam nos campos que além de não aceitar resistiam às regulamentações vindas da igreja. A aristocracia rejeitava não pela privação de suas vontades carnais, mas sim pela privação financeira. Pois seus casamentos era todos voltados para os interesses e a continuidade de uma linhagem que herdasse os bens.

No século XII mais alguns pontos que eram relacionados à educação sexual foram colocados para a sociedade enfrentando obviamente muitas dificuldades. Falava agora da união heterossexual. O matrimônio só poderia ocorrer entre pessoas de sexos opostos. Em hipótese alguma dois homens ou duas mulheres poderiam se unir, já que estes casais nunca poderiam gerar um filho, tendo em vista que o casamento também tinha como objetivo a perpetuação da humanidade e isso eram vistos como graças divinas.

Começou a se perseguir e condenar a bestialidade. Ou seja, a existência da relação sexual entre homens e animais. Isso era algo muito natural durante a Idade Média, mas os religiosos viam isso como uma atitude não humana e irracional. Uma verdadeira violência ao animal que não fora criado para essa finalidade. Isso seria contra a sua natureza e a ordem divina.

Homossexualismo mesmo às vezes presente do próprio clero era perseguido e combatido com veemência. Sodoma e Gomorra eram os exemplos de cidades que viviam em estado de devassidão. Mas antes de tudo Deus ainda dá chances de se encontrar alguém puro. Mas não se encontra e com isso sucumbiu. Neste período era visto como pecado tanto os fato da pessoa ser homossexual quanto praticar homossexualismo. Essa prática era também muito comum entre alunos e entre professores e alunos. Em Montaillou um povoado occitânico, por exemplo, podemos encontrar o seguinte depoimento em relação a homossexualismo:

Eu tinha então dez a doze anos. Foi há cerca de vinte anos. Meu pai me colocara para aprender gramática com meu mestre Pons de Massabucu, mestre-escola, e que mais tarde se tornou dominicano. Eu dividia o quarto com esse mestre Pons e com seus outros alunos, Pierre de l’Isle (de Montaigu), Bernard Balessa (de Pamiers) e Arnaud Auriol, filho do cavaleiro Pierre Auriol. Esse Arnaud era de La Bastide-de-Sérou; já fazia a barba e agora é padre. Havia também meu irmão Bernard de Verniolles e outros alunos cujos nomes esqueci. No quarto comum do mestre e dos alunos, dormi durante umas boas seis semanas na mesma cama que Arneud Auriol… Na quarta ou quinta a noite que passávamos juntos, como Arnaud pensasse que eu estava em pleno sono, começou a me abraçar, a meter-se entre minhas coxas… e a mover-se como se eu fosse uma mulher. E continuou a pecar assim todas as noites. Eu ainda não passava de uma criança, isso me desagradava. Mas, tomado de vergonha, não ousei a revelar esse pecado a ninguém.
(LE ROY LADURIE, Emmanuel. Montaillou, povoado occitânico: 1294-1324. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.  pág. 184-185)

Em relação ao matrimônio, quando no Novo Testamento no livro de Mateus se diz que homem e mulher deixarão suas casas para se tornarem uma só carne e que o homem não separe que Deus uniu aí está exposto ao que se refere Indissolubilidade do Casamento. Nada nem ninguém tinham o poder de fazer com que um casal após terem recebido o sacramento do matrimônio se separasse.  A igreja medieval só aceitava separação de casamentos quando ele não ocorria fisicamente (não havia ainda ocorrido à união carnal), quando era realizado entre, em casos de bigamia e quando a traição era praticada pela mulher. O temor de dar à luz a um filho que não fosse legítimo correspondia a uma preocupação  geral muito presente na cultura medieva. Na occitânia, essa preocupação era bastante forte na nobreza. Ter um filho bastardo avistava a mulher, a sua raça e o ventre do qual ele saira. Essa preocupação era uma das razões que os poetas propunham por vezes modelos platônicos do amor extraconjugal. Com isso eles pregavam que a castidade cariciosa dos que se deitavam na mesma cama, não precisava recear uma gravidez indesejada. As mulheres sempre eram as que sofriam com a bigamia. Sendo assim bem visível à característica altamente machista colocada em prática. (LE ROY LADURIE. 1997:217)

Mesmo com este arcabouço ao redor da união matrimonial, ela ainda não era obrigatória entre os cristãos. Somente no século XVI no ano de 1545 é que o casamento se torna obrigatório pelo Concílio de Trento que fora convocado pelo Papa Paulo III. Os cânones que foram elaborados sobre o tema eram retaliativos. Do cânon 971 ao982 apena que era dada a quem de colocasse contrário ao que estava exposto seria a excomunhão. E este casamento só era realizado e bem aceito pela sociedade se fosse entre dois cristãos. De maneira alguma um cristão casaria com uma não-cristã. Se assim procedesse colocaria em risco sua reputação na cidade e nas circunvizinhanças. (LE ROY LADURIE. 1997:228)

 

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Sobre O Gerente

Graduado em História pela Universidade Católica de Pernambuco, estudioso das áreas da Filosofia, Sociologia, correntes religiosas e da História da Igreja. Extrovertido e Nerd, eterno buscador do conhecimento e das virtudes humanas.

Publicado em 30 de junho de 2012, em A Bodega, Mundo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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