Uma nação, um poder, um medo

Há muito tempo numa galáxia muito, muito distante… Havia a República Galáctica que era uma forma de governo que conservava sua autoridade por muitos anos. Esta República tinha sobre sua tutela vários sistemas de planetas e mantinha a justiça, a paz e livre comércio entre eles. Gerando assim uma convivência harmoniosa. Após vários anos dois grupos chamados Separatistas e a Confederação de Sistemas Independentes se voltaram contra a República para impor sua política avassaladora e que desrespeitava todos os direitos dos povos que eles submetiam. Após algum tempo se descobre que o Chanceler da República na verdade era líder destes grupos rebeldes e que facilitava tais ações para poder se utilizar da força armada republicana para fazer alianças e invadir planetas (primeiramente de maneira diplomática) em nome da paz. Se vendo acuado pelas ações Separatistas a então República se transforma num Império e o que era pacífico e diplomático se torna autoritário.


Na trilogia de ficção científica dos filmes Guerra nas Estrelas (Star Wars) Episódios I (1999), II (2002) e III (2005) do diretor George Lucas temos este pano de fundo de dominações de jogos políticos de defesa de interesses que desrespeitam os pequenos grupos. Se olharmos e nos utilizar-mos da história, fazendo um paralelo com a ficção, percebemos que temos algo muito familiar. Onde se lê Império Galáctico podemos diz-se Estados Unidos da América, onde se lê grupos Separatistas e a Confederação de Sistemas Independentes podemos dizer Al-Qaeda. Vivemos no que chamamos tempos modernos, onde o futuro se faz ativo no presente. Inovações tecnológicas se superam a cada dia e o consumismo aumenta cada vez mais. Ser moderno é se utilizar-se destes produtos e seguir a conduta e os valores que são colocados e ate mesmo de certa forma impostos pela sociedade. Todo o Ocidente é dominado por este pensamento.

Tudo que se coloca margem da globalização é oposição a este “moderno” é aos seus derivados. Assim os grupos chamados de “terroristas” se utilizam de formas violentas de mostrar seu poder contrário ao que é imposto. Pois eles são

Bandeira da Al-Qaeda

esta margem, colocados de maneira imposta nesta linha. Mas essa utilização de violência não é fruto do mundo moderno, em seu livro Al-Qaeda e o que significa ser moderno, John Gray nos dá exemplos de grupos que são frutos do mundo moderno citando a Alemanha Nazista e a União Soviética. Não somente a Al-Qaeda é uma vertente moderna. A fé foi substituída pela ciência, e este adquiriu paramentos da religião para se tornar atraente. Os positivistas acreditavam que a ciência traria transformações e nivelaria o mundo num mesmo patamar de moralidade e ética. Assim a pobreza e a guerra seriam abolidas e se daria início a um novo mundo. Na mesma linha de pensamento Marx, Lênin, Fukuyama e os neoliberais criam numa anarquia igualitária e sem divisão de classes e num mercado-livre universal. Mas nada disso ocorreu e ainda está no mudo das utopias.

De maneira empirista, foi o capitalismo democrático do estilo norte-americano que passou o norteador da modernidade. Somente ele daria caminhos para existir uma civilização universal. Com todo este desenvolvimento econômico e cultural, atos de grupos que vão de contra este tipo de dominação são tidos como relíquias passadas de um tempo que não tem mais espaço de existir. Isso, pois se acredita que a ciência capacitará a humanidade a tomar de conta de seu destino. Mas como isso pode acontecer sem nem mesmo o termo humanidade pode ser usado.

“A Pax Romana, expressão latina para a paz romana, é o longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180.” Não esquecendo o tamanho que Roma tinha adquirido e a sua influência política nas cidades que dominava. A expressão acima citada é usada pelo autor só que sendo direcionada aos Estados Unidos da América, “Pax Americana”. Pax esta que por ironia é alimentada pela criação de um grande império financeira fundamentado na produção em massa de armas e investimentos no desenvolvimento militar. Sabemos que este investimento se deu principalmente no governo do Presidente George W. Bush devido ao atentado que sofreram no dia 11 de setembro de 2001. Dando assim início ao seu programa de guerra ao terror. Esse fato nos mostra e mostrou ao governo norte americano o quão frágil são mesmo cercados e movidos pela modernidade. Uma modernidade tecnológica que eles não se permitem dividir com ninguém.

George W. Bush

Dentre todos os países somente os EUA tem viés de engrenar, devido a sua hegemonia global, um programa de “pacificação” mundial. Mas para isso temos de levar em consideração três pontos que são exigências maiores que se colocam acima de sua primazia tecnológica. Primeiro pressupor que os EUA tenham força econômica para sustentar o papel imperial. Segundo eles terem vontade de mantê-la. E em terceiro, o mundo tem de aceitar tal condição.

Economicamente falando, temos a realidade que, apesar de seu poderio, os EUA dependem demais do mercado importador. Buscando assim no mundo países que invistam em seu mercado reprodutor. Mesmo tendo algumas crises internas, sempre conseguiram mascarar isso com o desvio de foco com algum conflito pelo mundo como, por exemplo, na Guerra Fria e nos ataques terroristas. O risco em ter sua economia alimentada pelos financiamentos de outros é que eles podem de repente retirar seus investimentos, isso acontecendo e outros seguindo o exemplo, seria um colapso. Mas esse fato com certeza criaria uma retaliação dos EUA para com o país que assim procedesse. Não fora simplesmente para colocar ordem no país que os EUA invadiram o Oriente Médio, mas sim para continuar garantindo o envio de petróleo. Pois se caso a Al-Qaeda conseguisse derrubar o regime saudita, “ela teria mão de ferro sobre a economia norte-americana” . Isso mostra que eles não podem se isolar do mundo já que é nele que se encontram seus investidores. Fazendo com que seja cada vez mais impulsionada sua diplomacia com grandes potências e a geração de altos acordos.

Segundo o texto de Gray, após o 11 de setembro, os norte-americanos têm sido mais odiados do que nunca. Antes já se havia uma insatisfação com as medidas que tomavam no campo militar e até mesmo econômico. Mas com a declarada “guerra ao terror” isso aumentou. Isso entra em conflito com o terceiro ponto que fala justamente da aceitação dos países dessa hegemonia americana. Invasões com justificativas que foram desmentidas, destruições de cidades e descontrole da situação, são exemplos vivos e marcantes do que houve na retaliação ao Oriente Médio após o atentado do World Trade Center. Sempre em busca dos inimigos, centralizado na figura de Osama Bin Laden, que nunca conseguiram destruir. Por ser espalhada no mundo e em territórios que os EUA não têm domínio, a Al-Qaeda vem aumentando um sentimento por justiça nos territórios palestinos que vão cada vez mais enraizando a guerra.

Em sua obra John Gray nos traz informações que são resultantes de recentes fatos e análises. Proporcionando-nos um conhecimento além de esclarecedor, alarmante. Mostrando-nos assim como essa idéia de modernidade serve para cegar a humanidade e as atitudes nacionais de maneira individualista. Deixando-se de lado o coletivo bem a se zelar. E que este conceito, modernidade, é frágil e efêmero.

A história não é uma ciência que tenha a capacidade de prever o futuro de um indivíduo. Mas ela pode, sendo auxiliado por informações e estatísticas afins, tentar traçar o futuro de nações. Temos o passado como um profeta, mas mesmo assim ele é ignorado por aqueles que hoje fazem à história. Tal qual como o Império Romano Ocidental, a dominação dos EUA se expandem cada vez. Embora os problemas políticos e econômicos venham a mesmo galope. E uma cegueira advinda pela soberba não permite que sejam visualizados os problemas que minam tal nação. É um império que se utiliza do medo, da influência mundial e do seu aparato militar para subjugar e se impor a qualquer nação que se coloque em seu caminho.

Bibliografia:

GRAY, John. Al-Qaeda e o que significa ser moderno. São Paulo. Globo, 2004.

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Sobre O Gerente

Graduado em História pela Universidade Católica de Pernambuco, estudioso das áreas da Filosofia, Sociologia, correntes religiosas e da História da Igreja. Extrovertido e Nerd, eterno buscador do conhecimento e das virtudes humanas.

Publicado em 8 de julho de 2012, em A Bodega, Mundo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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